ALICE

Artista, nacional do Burkina Faso, 24 anos, solteira e sem filhos. Refugiada reconhecida pelo Governo Brasileiro desde 2015

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Alice nasceu em uma família poligâmica e vivia sob a proteção do seu pai e sua primeira mulher, já que as outras esposas não tinham direito de guarda sob seus filhos. Estava na Costa do Marfim quando a guerra civil eclodiu no país em setembro de 2002 e, por isso, foi obrigada a regressar ao seu país de origem, Burkina Faso, para concluir os estudos em secretariado, profissão permitida para mulheres.

Apesar de gostar de estudar, sua alma sempre foi artística e, assim, começou a ter aulas de teatro, escondida da sua família. Logo se reconheceu enquanto jovem feminista e começou a questionar o papel reservado às mulheres nas sociedades africanas. Quando seu pai descobriu o segredo que Alice escondia, obrigou-a a se casar com um homem de 60 anos, na esperança de que esse matrimônio fosse salvar seu futuro. Filhas mulheres não podem desobedecer as ordens dadas por seus pais sem serem banidas do núcleo familiar que, em muitos países, é sua única proteção.

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“Existem associações locais que acolhem meninas banidas pelas famílias, mas, em geral, elas ficam entregues à própria sorte e são alvo de preconceito e violência”.

Inconformada com esse destino, Alice arquitetou sua fuga em segredo e veio ao Brasil em busca de liberdade. Sua decisão foi encarada pela família como um ato de rebeldia e profunda desobediência. Alice sonha em poder regressar ao seu país, enquanto mulher livre, realizada, e feliz para provar que seu pai estava errado ao pretender escolher seu futuro. Alice também sonha com o dia em que todas as mulheres africanas serão livres para tomar as decisões sobre suas próprias vidas. Enquanto isso, ela quer escrever livros de contos africanos para as crianças refugiadas que já nasceram em solo brasileiro, na intenção de que elas não percam suas origens culturais.

“Na África, os pais ainda não entenderam que os filhos precisam exercer sua liberdade de escolha e, por isso, homens mais velhos se casam com meninas mais novas”.

CONTEXTO POLÍTICO NO BURKINA FASO:

Desde 1987, o Burkina Faso é governado por Blaise Compaoré, responsável pelo golpe de estado mais sangrento da história e que executou o antigo presidente do país. Trata-se de um país multiétnico, composto, majoritariamente, por três diferentes etnias, organizadas de diferentes maneiras. Em localidades do interior do país, o órgão que centraliza todas as decisões comunitárias é o conselho de anciões, que decide os rumos da vida dos cidadãos.

A situação das mulheres no Burkina Faso é extremamente delicada, pois, ao longo dos anos, elas permanecem ocupando uma posição de subordinação na sociedade, sem acesso à educação, ao emprego, à propriedade privada ou a direitos familiares. Na maior parte do país, elas ainda são impedidas de trabalhar e ocupam um espaço voltado apenas para a reprodução. As mulheres são vistas como responsáveis diretas pela não fecundação e, por isso, os maridos gozam do direito de abandoná-las, caso não possam ter filhos.

Aquelas que permanecem solteiras são desvalorizadas socialmente e, não raro, difamadas e violentadas. O Burkina Faso também figura entre os países que ainda toleram a mutilação genital feminina, considerada como uma grave violação de direitos humanos pelas Nações Unidas. Além disso, o país também é marcado pela permissão oficial para celebração de casamentos concebidos entre meninas e homens adultos, desde que esses cumpram seus deveres relacionados ao pagamento dos dotes.