JEANNETE

Cabeleireira, (nacionalidade e idade omitidas), casada e mãe de 4 filhos. Solicitante de refúgio no Brasil desde 2014

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Jeannete é uma das filhas de um grande Imã (líder islâmico), tendo sido dada em casamento aos 14 anos, como quarta esposa de um homem muçulmano, com quem teve quatro filhos. Depois da morte do seu primeiro marido, Jeannete retornou ao lar do seu pai, levando seus filhos, e começou a trabalhar com compra e venda de tecidos para manter sua família.

Alguns anos depois, durante uma das suas viagens de negócios pelo país, Jeannete conheceu um homem cristão e se apaixonou por ele. Sabendo que aquela relação inter-religiosa jamais seria aceita pela sua família, eles decidiram se casar secretamente e mantiveram a relação em silêncio. Essa união foi, contudo, descoberta.

Certa noite, Jeannete disse que estaria saindo para uma viagem de trabalho e foi se encontrar com o marido. Durante a noite, enquanto estavam dormindo, seus familiares, liderados pelo seu pai, invadiram sua residência e arrancaram os dois da casa aos tapas e pontapés. Ambos foram espancados em praça pública, gerando um grande constrangimento, além das cicatrizes que carregam até hoje. Além da tortura física, a casa do casal foi completamente queimada e Jeannete testemunhou, em pé, seu marido ser enterrado vivo. Na sequência, ela foi arrastada de volta para a casa dos pais.

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“Eu precisei fugir porque quando meu dia chegasse, meu pai ia ter que fazer cumprir a lei muçulmana e me matar. Eu já não dormia.”

Na mesma noite, com o apoio e a ajuda financeira da mãe, Jeannete fugiu para um país vizinho porque sabia que seu pai seria obrigado a matá-la para honrar a família, marcada por um matrimônio concebido fora do islã. Mesmo longe de casa, a insegurança de Jeannete permaneceu viva porque os dois países são muito próximos e existe uma livre circulação de mercadorias e pessoas entre suas fronteiras.

Incomodada com toda a situação e com medo de ser novamente capturada, Jeannete contou com a ajuda do seu patrão para conseguir um visto e uma passagem aérea para o Brasil. Essa foi sua primeira viagem de avião. Chegando em Fortaleza, Jeannete foi aconselhada a ir de ônibus até São Paulo, cidade onde, supostamente, haveria uma maior concentração de africanos dispostos a ajudar.

Vivendo na metrópole, sem notícia dos filhos e trabalhando como cabeleireira, Jeannete recebeu a única visita que jamais poderia esperar: Seu marido reapareceu na porta do prédio da ocupação onde mora, perguntando por ela. Neste dia, ela descobriu que o marido não tinha morrido e que foi resgatado por um grupo de pessoas que haviam testemunhado o ocorrido. Depois de procurá-la em três diferentes países da região, ele conseguiu encontrá-la no Brasil e, hoje, vivem juntos aguardando a decisão acerca do seu pedido de refúgio mas, sobretudo, aguardando impacientemente notícias dos seus quatro filhos que ainda vivem na África.

“Eu vim para esse país para ser livre e ter paz. Sou uma mulher traumatizada porque minha vida foi cortada pela falta dos meus filhos.”