MARIA

historiadora e antropologa, nacional de Cuba, 40 anos, divorciada, sem filhos. Solicitante de Refúgio no Brasil desde 2014

Maria-retrato

Maria sempre trabalhou com temas relacionados a antropologia política, direitos humanos, imigrações, racismo, cultura afro-cubana, religiões de matriz africana e movimentos negros. Considerando que o espaço de trabalho em Cuba é limitado, ela sempre prestou serviços para jornais estrangeiros que tinham permissão para atuar em Cuba, fazendo análises políticas. Durante dois anos, trabalhou de forma ilegal para uma rádio americana chamada “Radio Única” com sede em Miami e sofria frequentes acusações por ser vista como “antirrevolucionária”.

Por se impor de maneira clara contra o regime vigente no país, lhe tiraram o direito de trabalhar. Na rua, passou a ser acompanhada por um militar que a seguia de perto, passando informações do seu paradeiro por telefone. Os espaços públicos nacionais já não a recebiam mais. Não era mais convidada para dar aulas ou palestras em escolas ou Universidades. Seu telefone foi cortado e a companhia telefônica alertou que sua linha estava grampeada. Seu marido, também acadêmico, foi jubilado da Universidade Federal. Logo, passou a ser considerada uma traidora da pátria.

maria-detaque

“Mesmo que eu quisesse regressar, Cuba não me aceitaria porque sou considerada uma traidora da pátria por ter fugido do meu país”

Resolveu dar uma basta e sair do país no dia em que sua casa foi assaltada e seu computador furtado. Os vizinhos do prédio a alertaram de que deveria partir porque estavam sendo sondados pela polícia. Descobriu que essa perseguição estava acontecendo porque havia denúncias de que ela estaria liderando um movimento negro independente em Cuba e sentiu medo.

Depois de ter sido totalmente desprovida da sua liberdade física, acadêmica, profissional, de opinião e manifestação, e com medo de ser assassinada, Maria saiu de Cuba e chegou até o Brasil onde quer recomeçar sua vida e, finalmente, publicar o livro que foi censurado em seu país de origem

“Vivia uma situação insuportável e percebi que precisava proteger minha vida porque poderia ser assassinada”

CONTEXTO POLÍTICO EM CUBA:

Cuba foi alvo da dominação espanhola nas Américas durante séculos, alcançando sua independência somente em 1898. No entanto, entrou na zona de influência dos Estados Unidos, que dominaram a política do país até o ano de 1959, quando Fidel Castro, com as suas propostas revolucionárias e nacionalistas, derrubou do poder Fulgêncio Batista e estabeleceu um novo regime em Cuba com o cargo de 1º ministro. Desde 1959 até os dias de hoje, o grupo de Fidel Castro se mantém no poder, com seu irmão estando no cargo de presidente do país.

Durante muitos anos, Cuba cerceou, através das suas políticas restritivas, a liberdade dos seus cidadão, proibindo o livre pensamento, fiscalizando e controlando os acessos da população aos meios de comunicação e proibindo o direito de ir e vir. A atuação do Estado como agente perseguidor é notada através das suas tentativas de calar as vozes dissonantes e gerar um clima de insegurança.

Organizações internacionais chegaram a denunciar que os cidadãos cubanos que realizam atos de repúdio ou se opõem ao governo dos irmãos Castro sofrem prisão de consciência e detenções arbitrárias.