MAYADA

Professora de Francês e Diretora de Departamento na Universidade de Damasco, nacional da Síria, 50 anos, casada e mãe de 2 adolescentes. Refugiada reconhecida pelo Governo Brasileiro desde 2014

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Mayada gozava de uma vida economicamente estável, trabalhava como professora de uma grande Universidade e seu marido como protético em seu próprio consultório. Mas, em abril de 2010 estourou a guerra civil no país e o cerco foi se fechando cada vez mais contra os cristãos, já que os soldados do Estado Islâmico haviam dominado diversos territórios. Mayada explica que, nestas circunstâncias, todos podem morrer a qualquer momento e que, por serem católicos, se sentiam muito mais expostos ao ultrapassar as barragens feitas por militares nas ruas da cidade. Essas barragens, muitas vezes, eram falsas e montadas pelos próprios terroristas que, se encontrassem um sírio católico, não hesitaria em executá-lo.

A difícil decisão de abandonar seu país foi tomada pela forte convicção que suas filhas deveriam crescer fora de um ambiente de guerra. Enquanto mãe e educadora, Mayada queria oferecer à sua família um futuro sem violência.

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“Eu amo a Síria que conheci, não essa que existe hoje. Essa não me interessa”

“Não quero que minhas filhas cresçam em uma cultura de guerra, onde podemos morrer a qualquer momento e em qualquer lugar”

A motivação que acelerou a fuga da família foi o brutal assassinato do professor de educação física da Universidade de Damasco, à queima roupa, na saída do trabalho e na frente dos estudantes. Logo depois desse triste episódio, no dia em que sua filha mais velha prestaria vestibular para arquitetura, elas presenciaram, estando dentro do carro, uma sequência de corpos mortos, expostos, ao longo da estrada. No caminho, apesar de tentar manter os olhos fechados, a jovem teve uma crise nervosa e não conseguiu concluir sua prova.

Sem enxergar outra possibilidade, a família da Mayada simplesmente fechou a porta da casa e foi embora, deixando todos os seus pertences e bens materiais para trás. A única certeza do momento era que precisavam salvar suas vidas e queriam se manter o mais longe possível daquele cenário de guerra e constante instabilidade. Assim, em 2013, os quatro chegaram em São Paulo, onde foram informados que sua casa, em Damasco, havia sido bombardeada e completamente destruída. Hoje, tentam reerguer sua vida, aprender um novo idioma, ingressar em uma Universidade e trabalhar.

“A refugiada não é terrorista. Queremos trabalhar e viver como seres humanos”

“Ajudem as mulheres refugiadas a ficarem com seus filhos”

CONTEXTO POLÍTICO DA SÍRIA:

O número de pessoas deslocadas em razão do conflito na Síria ultrapassou os 4 milhões em 2015, registrando a maior crise de refugiados que o mundo já testemunhou. Além dos refugiados que conseguiram chegar até a fronteira de países de acolhida, existem, pelo menos outras 7,6 milhões de pessoas fugindo dentro da própria Síria, muitas delas enfrentando dificuldades para sobreviver em locais de difícil acesso, por exemplo, na cidade de Madaya.

Em 2015, quase 1 milhão de Sírios conseguiu chegar, de barco, até a fronteira da Grécia, tendo sobrevivido a uma fuga insegura e, na maioria das vezes, sendo explorados por redes de coiotes e contrabandistas. A rota para chegar até a Alemanha é penosa e é preciso ultrapassar as fronteiras da Grécia, Macedônia, Sérvia, Croácia e Eslovênia. A inexistência de rotas seguras de refúgio coloca essas pessoas em condições de extrema vulnerabilidade. As autoridades internacionais europeias ainda não apresentaram um plano de trabalho coerente e as políticas de acolhida mudam a cada dia.

Desde o começo da guerra, o grupo extremista Estado Islâmico, também conhecido como ISIS, e a filial da al-Qaeda na Síria, Jabhat al-Nusra, vêm assumindo a responsabilidade por violações de direitos humanos sistemáticas e generalizadas. Tragicamente, a guerra na Síria está entrando no seu sexto ano, sem que os países consigam apresentar uma solução para o seu fim. Enquanto houver guerra, o número de refugiados continuará aumentando exponencialmente.