NKECHINYERE JONATHAN

Professora de inglês, nacional da Nigéria, 44 anos, casada e mãe de 4 filhos. Solicitante de refúgio no Brasil desde 2014

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Jonathan é professora de inglês e lecionava como missionária em uma escola mista (para meninos e meninas), localizada no norte da Nigéria. Com a invasão do grupo terrorista Boko Haram na região, a educação de meninas passou a ser proibida e mais de 200 crianças do sexo feminino foram sequestradas pelo grupo, forçando, assim, o fechamento das escolas locais.

Jonathan desafiou a nova ordem e permaneceu exercendo sua profissão, dessa vez dentro da igreja, por entender que a educação é a ferramenta mais importante na construção da consciência política e no combate ao terrorismo. Por ignorar as ordens estabelecidas pelo grupo, Jonathan passou a ser considerada inimiga do regime e foi perseguida por aqueles que queriam implementar o Estado Islâmico no país. Das 15 professoras que trabalhavam na mesma escola que Jonathan, apenas 5 sobreviveram para relatar as atrocidades praticadas contra as mulheres e meninas nigerianas.

Jonathan-destaque

“Bombas eram colocadas dentro de ônibus aleatórios, qualquer som forte me apavorava e era difícil me concentrar no trabalho, em razão do medo constante que sentia”

Diante da situação instaurada, a família decidiu que ela deveria ser  a primeira a deixar o país, na esperança de reencontrar os demais na sequência. Para isso, ela precisou fugir a pé, por dentro da floresta fechada, durante 4 dias e 4 noites, sendo guiada pelas estrelas e levando apenas três mudas de roupa. Ao chegar viva no país da fronteira – Benin, Jonathan conseguiu comprar uma passagem aérea e emitir um visto de viagem para vir ao Brasil.

“Quando estamos educando meninas, estamos ensinando para todas as futuras gerações que aprenderão com o seu conhecimento.”

“As crianças são o futuro de qualquer sociedade. Quanto mais educação recebem, melhores são as famílias e os países”

Hoje, morando em São Paulo, Jonathan faz fisioterapia para curar o estresse provocado pela fuga nos ossos dos seus pés e busca um emprego depois de ter sido demitida, sem justa causa, do shopping onde trabalhava na área de limpeza. Mas, o que ela mais anseia é o reencontro com seu marido e filhos que ainda permanecem na Nigéria, em situação de perigo iminente, enquanto ela aguarda a decisão do seu processo no Brasil.

CONTEXTO POLÍTICO NA NIGÉRIA:

A Nigéria é um país com população de 150 milhões de habitantes igualmente divididos entre muçulmanos e cristãos. O norte do país é predominantemente muçulmano e o sul é povoado por uma maioria cristã, além de outras minorias religiosas.

O Boko Haram é uma organização jihadista (muçulmana extremista), com base no norte da Nigéria, norte de Camarões e Níger e que bebe na fonte do Wahabismo da Arábia Saudita, responsável pelo extermínio de xiitas e cristãos no mundo. Fundada em 2001, a organização pretende criar o chamado um Estado Islâmico “puro”, baseado na Shari´a, conjunto de leis islâmicas radicais que se opõe frontalmente aos valores ocidentais, impondo regras violentas de convivência e legitimando graves violações aos direitos das mulheres.

Esse grupo ficou internacionalmente conhecido por atacar igrejas cristãs, queimar indivíduos e praticar atos de barbárie em colégios, delegacias de polícia e locais destinados ao lazer. O grupo se posiciona contra o sistema de educação ocidental e proíbe, sobretudo, que meninas frequentem as escolas. Apesar de não exercer controle na totalidade do país, o grupo está estabelecido nas regiões norte e nordeste da Nigéria (Borno, Yobe, Katsina, Kaduna, Bauchi e Kano), tendo capacidade para lançar ataques em toda a Nigéria. A política de ataque aos civis é explicitada por declarações públicas de seus líderes e ou porta-voz.