SILVYE

Advogada, nacional da República Democrática do Congo (RDC), 34 anos, casada e mãe de 4 filhos. Refugiada reconhecida pelo Governo Brasileiro desde 2014.

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Sylvie se casou, ainda jovem, com um militante político que lutava contra o violento regime ditatorial, instalado na República Democrática do Congo (RDC) e, com ele, teve seus filhos. Aqui, o medo de morrer é consequência direta de uma política de Estado conturbada, violenta e opressora.

Quando recebeu, pelo telefone, a notícia da prisão arbitrária do marido, soube que precisava fugir do país porque, a partir daquele momento, toda sua família havia sido colocada em real perigo de vida. Sem perder tempo, Silvye juntou algumas mudas de roupa, seus dois filhos pequenos e fugiu até o porto mais próximo para tentar embarcar, clandestinamente, em um navio, rumo a um destino desconhecido. Na fuga, não houve tempo para recuperar sua filha mais velha, que estava na escola e ficou sob os cuidados da sua mãe. Salva pela solidariedade da tripulação, Silvye embarcou no porão de um navio e, por não ver a luz do sol, nunca soube dizer quantos dias durou sua viagem. Os três foram alimentados com biscoitos e beberam a água que os tripulantes traziam até chegar no porto de Santos, litoral Paulista.

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“É muito angustiante não receber notícias daqueles que você ama.”

Ao desembarcar, Silvye não foi informada do local onde estava e não podia imaginar que havia cruzado o Oceano Atlântico. Perplexa em razão da quantidade de pessoas brancas que viu na rua e desorientada por não poder se comunicar em francês, descobriu que havia chegado no Brasil. Sem ter outra opção, Silvye dormiu dois dias na rua, com seus filhos, até encontrar um compatriota que a encaminhou para pedir ajuda em uma organização não governamental do centro de São Paulo.

“Estava sendo atendida em uma ONG, quando ouvi falarem o nome do meu marido. Nos reencontramos e, hoje, vivemos juntos com nossos filhos. Foi um milagre!”

CONTEXTO POLÍTICO DA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO:

A República Democrática do Congo vive intensas conturbações políticas desde o início do seu processo de independência da Bélgica, em 1960. Associado ao regime ditatorial experimentado, as mulheres vivem em situação de extrema instabilidade, já que o país registra o maior número de casos de estupro e violência doméstica do mundo. E, como se não fosse suficiente, na região leste da RDC se mantém ativa uma guerra que já dura 3 décadas, envolvendo milícias armadas, diferentes grupos étnicos e o exército dos países fronteiriços.

O primeiro golpe de estado do país foi dado pelo General Mobutu Sese Seko, que subiu ao poder em 1965 e governou o país, com mãos de ferro, até 1997. Neste ano, Laurent Kabila ascendeu à presidência em decorrência dos conflitos instaurados em Ruanda, tendo sido assassinado em 2001. Na presidência ficou seu filho, Joseph Kabila que, até os dias atuais, mantém o poder favorecendo a comunidade internacional que explora as riquezas minerais do país, enquanto massacra sua população.

Desde as eleições de 2011, a RDC enfrenta uma crescente onda crescente de violência, hostilidade e perseguição política contra grupos e indivíduos com posições dissonantes. Kinshasa ainda vive uma clara situação de insegurança e medo, já que membros da oposição sofrem constantes perseguições, ameaças, torturas, maus-tratos, prisões arbitrárias e súbitos desaparecimentos. Indivíduos que apoiem ou que estejam de qualquer forma relacionados à oposição, estão sujeitos ao mesmo tratamento, extensivo aos seus familiares.