VILMA

Estudante, nacional de Angola, 21 anos, solteira e sem filhos. Solicitante de refúgio no Brasil desde 2014

Vilma-retrato

Vilma era estudante secundarista e militante política em Luanda, envolvida com movimentos que defendiam a liberdade de expressão e manifestação, lutava pelo fim do regime ditatorial que vigora no país há 35 anos. Desde 2010, Vilma se dedicava à causa dos estudantes que não conseguiam acesso à educação pública de qualidade e afirmava que manter o jovem alienado fazia parte da estratégia de dominação prevista pelo próprio governo. Suas denúncias também iam no sentido de clarear o que estava por trás da venda de bebidas para jovens e o notório incentivo que davam para que as mulheres engravidassem cedo e anulassem sua vida profissional.

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“Viver em Angola é frustrante, a corrupção é muito forte e a liberdade de expressão não existe”

Muito embora estivesse confortável nesse lugar de pertencimento que encontrou para si, em 2012, Vilma começou a ser perseguida pelo Governo, assim como muitos outros estudantes da sua escola que acabaram sendo presos ou desaparecendo no mesmo período. Um dia, seu pai recebeu um telefonema anônimo, de alguém que avisava que sua filha estava na linha de frente daqueles que precisavam ser eliminados pelo poder local. Ainda menor de idade (17 anos), com a ajuda financeira de uma igreja e com o apoio dos seus pais, ela decidiu fugir de Angola e vir para o Brasil porque conhecia o idioma falado e queria experimentar uma vida livre e sem constantes ameaças.

“A intenção do governo de Angola não é matar você, ele quer te torturar para mostrar quem manda no país”

Hoje, Vilma cursa o ensino superior em Fisioterapia e trabalha na bilheteria de um cinema de rua na capital paulista, enquanto aguarda a decisão do seu pedido de refúgio no Brasil.

CONTEXTO POLÍTICO EM ANGOLA:

Desde sua independência, Angola vive uma situação de disputa de poderes entre diferentes grupos políticos existentes. Em 1975, após 13 anos de uma intensa guerra, a República de Angola tornou-se um Estado independente, sob a liderança do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). A instabilidade política é, porém, reinstalada, a partir da eclosão de uma guerra civil, gerada a partir do confronto estabelecido entre o MPLA e uma coalizão de movimentos pela libertação, conhecida como UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola).

A guerra civil de Angola causou a morte de quase um milhão de pessoas, levando outros quatro milhões a se refugiarem em diversos países fronteiriços ou além mar. O MPLA manteve seu poder político e nele permanece até hoje, contabilizando 35 anos na frente do poder local. O atual presidente, José Eduardo Santos, assumiu a liderança do país em 1979, tendo sua permanência assegurada até 2017, depois de vencer as eleições de 2012.

A partir de 2011, a população, organizada para denunciar as fraudes do sistema eleitoral local e questionar a perpetuidade do poder no país, começou a ser massacrada. Uma onda de medidas repressivas recaiu sobre as liberdades de expressão, de imprensa, de associação, de opinião e de reunião em território angolano, provocando detenções arbitrárias, uso excessivo da violência policial, desaparecimentos e graves violações de direitos humanos. A situação atual de Angola é crítica e merece ser analisada com parcimônia.